sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Entre


Eu era o grande lago represado de água podre e abissal. E havia um suspiro frio e doce trazido pelo arrebol de novos dias. Era assim. Eu acordava às vezes 05h30min, às vezes 11h00min. De manhã era a fresca quem cuspia o resto de secreção das noites molhadas. Depois de abrir os olhos não me restava muito que não fosse levantar-me da cama para deitar-me em um sofá e ali ficar até o almoço. Tomar café da manhã em um gazebo não fazia parte do meu dia. Minha presunção se resumia em esperar um almoço decente: omelete de flor de abóbora, limonada suíça e catchup. Amarelo, verde e vermelho. Alegria!!!

Deitado em um sofá, anterior ao histórico, eu me deixava aliciar por ácaros. Eu e uma fôrma de gelo praticávamos prazeres decadentes. Absorto me rendia ao tempo, entregue em uma imitação graciosa de um Chesterfield na qual minha tataravó, uma índia laçada pelo meu avô, deveria tomar chá de Oasca e sonhar com pacas, tatu, cutia não, anos atrás... O solteirão conde de Derby deve ter amaldiçoado essa afronta:

―Eu, conde de Derby da família dos Stanhope, ordeno que por 10 gerações todos o primogênitos dessa família tenham azar no amor, assim como eu!!!

Naquela manhã maldições como esta era o que melhor explicava meu atual estado. Foi o azul e um sorriso abstrato quem desviou minha atenção repentinamente para esferas superiores e me petrificou por dentro com o gelo que engoli. Doug (Maicon) era conteúdo suspenso em caixa alta. Um mistério aquático e espalhado prendia minha atenção naquele olhar molhado e ingenuamente malicioso. Havia algo de estrelas naquele contato, a constelação sem nome de um nunca mais, era simples demais, frágil demais, pequeno e delicado demais, um veneno tão concentrado em gota que mataria o que menor se tem dentro: a alma que não pesa nada.

O contato de Qi entre nós foi em uma comunidade sem tampa, todos lá gostam assim, é para melhor ver o céu. E foi letárgico ver o príncipe das trevas no cume do seu universo de cabeça pra baixo. Seu mito de criação vem do jardim do Hades onde Plutão e Perséfone fazem sacanagem e comem romã durante o inverno. Há algo por ser dito eternamente nele... Seu corpo é casca de vidro, se tivermos calma podemos ver o que tem dentro, então repara...

Esse Aquário Virgem tem um mundo secreto dentro dele, um mistério bem aberto em sete fechaduras destrancadas e um liquido em lupa que aumenta seu conteúdo. Existe um pecado aqui dentro que alimenta sua alma de prazer e goza suas dores mais rasgadas. Ler o que é escrito aqui é apalpar o corpo de quem aqui vive. Escrever o que você lê aqui é masturbar sua mente e ejacular possibilidades.

Entre.

Antoine




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